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A importância de ouvir os estudantes na construção de uma escola mais participativa

A importância de ouvir os estudantes na construção de uma escola mais participativa

Uma escola verdadeiramente comprometida com a formação de cidadãos precisa reconhecer que os estudantes não são apenas receptores de conhecimentos, mas também participantes ativos do processo educacional.

Como professor de Educação Física, acredito que ouvir crianças e adolescentes representa uma oportunidade de compreender suas necessidades, identificar dificuldades e construir um ambiente escolar mais acolhedor.

A participação estudantil não significa transferir aos alunos as responsabilidades dos professores e gestores, mas garantir espaços de diálogo, respeito e colaboração.

Afinal, uma educação de qualidade também deve ensinar os jovens a expressar opiniões, assumir responsabilidades e participar das decisões que envolvem sua formação.

Por que ouvir os estudantes é fundamental para a qualidade da educação?

A educação brasileira enfrenta desafios relacionados à aprendizagem, à permanência escolar e à construção de ambientes adequados ao desenvolvimento de crianças e adolescentes.

Entretanto, considero que muitas discussões sobre esses problemas acontecem sem que os próprios estudantes tenham oportunidades suficientes de apresentar suas percepções.

Professores, gestores e responsáveis possuem conhecimentos importantes sobre o funcionamento das escolas, mas os alunos também vivenciam situações que podem contribuir para a compreensão da realidade educacional.

São eles que participam diariamente das atividades pedagógicas, convivem nos espaços escolares e experimentam diretamente os efeitos das decisões administrativas.

Na minha visão, reconhecer a importância dessas experiências não significa considerar que todas as opiniões estudantis devam ser transformadas automaticamente em decisões.

Significa compreender que a escuta pode oferecer informações relevantes para o planejamento pedagógico e para a identificação de necessidades que nem sempre são percebidas pelos adultos.

Uma escola participativa precisa estabelecer mecanismos para que os estudantes expressem dúvidas, apresentem sugestões e participem de discussões relacionadas ao ambiente em que aprendem.

Esse processo pode contribuir para fortalecer o diálogo, melhorar a convivência e desenvolver habilidades importantes para a vida em sociedade.

A participação estudantil é um direito reconhecido pela legislação brasileira

A presença dos estudantes nos espaços de participação escolar não depende exclusivamente da iniciativa das instituições de ensino. A legislação brasileira estabelece direitos relacionados à organização estudantil e à participação na vida educacional.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990), em seu artigo 53, assegura às crianças e aos adolescentes o direito à educação, ao respeito por parte dos educadores, à contestação de critérios avaliativos e à organização e participação em entidades estudantis.

Essas garantias demonstram que o estudante não deve ser compreendido apenas como alguém que precisa cumprir regras e receber conhecimentos. Ele também possui direitos que precisam ser respeitados durante sua trajetória educacional.

Outro marco importante é a Lei nº 7.398, de 4 de novembro de 1985, que assegura a organização de entidades autônomas representativas dos estudantes da educação básica, conhecidas como grêmios estudantis.

O direito de participar também envolve responsabilidades

Acredito que o exercício da participação precisa estar associado à compreensão das responsabilidades individuais e coletivas.

Apresentar opiniões, defender ideias e participar de decisões são experiências importantes, mas também exigem respeito às diferenças e reconhecimento dos direitos das outras pessoas.

A escola possui uma função educacional nesse processo. Ao organizar espaços de diálogo, pode contribuir para que os estudantes aprendam a argumentar, ouvir perspectivas contrárias e compreender que nem todas as propostas poderão ser implementadas.

Na minha avaliação, a participação estudantil deve ser incentivada de maneira responsável, respeitando a idade dos participantes, suas necessidades educacionais e as atribuições dos profissionais que atuam nas instituições.

O protagonismo juvenil começa quando a escola reconhece a voz dos alunos

O conceito de protagonismo juvenil está relacionado à possibilidade de adolescentes e jovens participarem ativamente de experiências que envolvam aprendizagem, organização coletiva e desenvolvimento de responsabilidades.

Entretanto, considero importante evitar que essa expressão seja utilizada apenas como um recurso de linguagem em documentos pedagógicos.

O protagonismo precisa representar oportunidades concretas para que os estudantes contribuam com ideias, participem de projetos e compreendam os resultados de suas ações.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) contempla competências relacionadas à argumentação, à comunicação, à empatia, à cooperação, à autonomia e à responsabilidade. Essas dimensões dialogam diretamente com a importância de desenvolver experiências educacionais que envolvam participação.

Participar não significa decidir tudo

Uma preocupação legítima envolve a necessidade de preservar as responsabilidades dos professores e gestores.

Ouvir estudantes não significa permitir que determinem individualmente conteúdos curriculares, critérios de avaliação ou regras institucionais sem considerar os objetivos educacionais.

Acredito que a participação precisa acontecer dentro de processos organizados, nos quais os alunos compreendam quais decisões podem receber suas contribuições e quais dependem de critérios técnicos, pedagógicos ou legais.

Uma turma pode participar da escolha de temas para determinado projeto, por exemplo, sem que isso comprometa os conhecimentos previstos no currículo. Da mesma forma, estudantes podem apresentar sugestões sobre atividades culturais e esportivas, respeitando a disponibilidade de recursos e o planejamento escolar.

Essas experiências permitem desenvolver autonomia sem abandonar a orientação necessária ao processo educativo.

Grêmios estudantis e conselhos escolares fortalecem a gestão democrática

A construção de uma escola participativa depende de espaços organizados que permitam a representação dos diferentes integrantes da comunidade educacional.

Os grêmios estudantis representam uma possibilidade importante de participação, pois permitem que alunos discutam interesses coletivos, proponham atividades e desenvolvam experiências relacionadas à organização democrática.

Por meio dessas entidades, os estudantes podem participar da elaboração de projetos culturais, esportivos, educacionais e sociais, além de apresentar demandas relacionadas ao cotidiano das instituições.

Acredito que essas experiências possuem valor formativo porque permitem compreender como funcionam processos de representação, construção de propostas e negociação de interesses.

O papel dos conselhos escolares

A participação estudantil também possui espaço na legislação relacionada à gestão democrática. A Lei nº 14.644, de 2 de agosto de 2023, alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional para estabelecer disposições sobre os conselhos escolares e os fóruns dos conselhos escolares.

A legislação prevê a presença de representantes dos estudantes, além de professores, demais servidores, responsáveis e membros da comunidade local, na composição dos conselhos escolares.

Na minha avaliação, essa organização reconhece que a gestão educacional pode ser fortalecida quando diferentes segmentos possuem oportunidades de participação.

Entretanto, a existência formal desses espaços não garante, isoladamente, um funcionamento democrático. É necessário oferecer informações acessíveis, respeitar os representantes e estabelecer procedimentos que permitam acompanhar as decisões tomadas.

A escuta dos estudantes pode contribuir para melhorar a convivência escolar

As relações construídas dentro das instituições de ensino influenciam diretamente a experiência educacional. Situações relacionadas ao respeito, à discriminação, aos conflitos e ao sentimento de pertencimento podem interferir na maneira como os alunos participam das atividades escolares.

Considero que ouvir os estudantes representa uma das formas de compreender essas situações. Muitas dificuldades de convivência acontecem em espaços ou momentos que nem sempre são acompanhados diretamente pelos professores.

Por isso, a existência de canais confiáveis de comunicação pode contribuir para identificar problemas e desenvolver estratégias de prevenção.

Uma experiência documentada nesse sentido é a iniciativa Chama na Solução — Grêmios pela Paz, desenvolvida pelo UNICEF e parceiros.

Segundo relatório publicado em maio de 2025, o projeto envolveu diretamente 340 estudantes e 25 professores de 36 escolas municipais de São Paulo, promovendo atividades de formação e participação relacionadas à prevenção da violência e à construção de ambientes escolares mais seguros.

A escuta precisa acontecer em ambientes de confiança

Na minha visão, estimular a participação dos estudantes também exige atenção à maneira como suas manifestações são recebidas.

Um aluno que apresenta uma dificuldade precisa encontrar um ambiente no qual possa se expressar sem constrangimentos ou exposição desnecessária.

Da mesma forma, reclamações e denúncias precisam ser tratadas com responsabilidade, observando os procedimentos institucionais de proteção.

É importante diferenciar espaços de participação coletiva de situações que exigem atendimento individualizado. Questões relacionadas à violência, à saúde mental ou à proteção de crianças e adolescentes podem exigir acompanhamento especializado e encaminhamento aos serviços competentes.

A escola deve promover o diálogo, mas também precisa reconhecer os limites de sua atuação e as responsabilidades dos profissionais envolvidos.

Professores precisam ser valorizados para construir uma escola participativa

A participação estudantil não pode ser compreendida como uma responsabilidade adicional atribuída exclusivamente aos professores, sem que existam condições para desenvolver esse trabalho.

Organizar debates, acompanhar projetos, mediar conflitos e orientar representantes estudantis são atividades que exigem planejamento pedagógico, tempo e apoio institucional.

Como professor, considero importante reconhecer que a construção de ambientes participativos depende de profissionais preparados e valorizados.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), em seu artigo 13, estabelece responsabilidades docentes relacionadas à elaboração da proposta pedagógica, ao acompanhamento da aprendizagem e à articulação entre escola, famílias e comunidade.

Essas atribuições demonstram a complexidade do trabalho dos professores e a necessidade de oferecer condições adequadas para seu desenvolvimento.

A participação dos alunos não diminui a autoridade pedagógica

Acredito que existe uma diferença importante entre autoridade profissional e ausência de diálogo.

O professor precisa estabelecer objetivos, organizar atividades, acompanhar a aprendizagem e orientar os estudantes. Entretanto, essas responsabilidades não impedem a construção de relações baseadas no respeito e na participação.

Ouvir uma sugestão não significa concordar automaticamente com ela. Da mesma forma, explicar os motivos de uma decisão pode contribuir para que os alunos compreendam melhor as regras e os objetivos educacionais.

Na minha avaliação, a autoridade pedagógica pode ser exercida com firmeza e abertura ao diálogo, reconhecendo que professores e estudantes possuem responsabilidades diferentes, mas participam de um mesmo processo de formação.

A Educação Física e o esporte oferecem oportunidades de participação

A Educação Física representa um espaço importante para desenvolver experiências de convivência, participação e responsabilidade coletiva. Jogos, brincadeiras, danças e modalidades esportivas permitem que os estudantes experimentem diferentes formas de organização e interação.

Nas atividades esportivas, por exemplo, os participantes precisam compreender regras, estabelecer estratégias e tomar decisões em conjunto. Essas situações podem ser utilizadas pedagogicamente para estimular a comunicação e o respeito às opiniões dos colegas.

O voleibol apresenta possibilidades interessantes nesse contexto. Por ser uma modalidade coletiva, exige que os integrantes compreendam suas responsabilidades e participem da organização das ações durante o jogo.

Entretanto, acredito que o potencial educativo dessas experiências depende do planejamento profissional. A competição, isoladamente, não garante o desenvolvimento de cooperação ou respeito.

O estudante também pode participar da organização das atividades

Uma proposta pedagógica pode oferecer oportunidades para que os alunos contribuam com a definição de estratégias, a organização de equipes, a adaptação de atividades e a avaliação das experiências realizadas.

Essas possibilidades precisam respeitar as condições de participação e os objetivos estabelecidos pelo professor.

A experiência com a Associação de Voleibol Sul Catarinense (AVOSUL), entidade da qual sou fundador e presidente, também integra minha trajetória relacionada ao desenvolvimento do esporte.

Entendo que projetos esportivos podem oferecer oportunidades para discutir liderança, participação coletiva e responsabilidade, desde que essas dimensões sejam trabalhadas de maneira intencional.

Na minha visão, o esporte educacional precisa permitir que crianças e adolescentes compreendam não apenas os fundamentos técnicos das modalidades, mas também as relações humanas presentes nas atividades coletivas.

Como transformar a escuta estudantil em ações concretas nas escolas?

Acredito que um dos principais desafios da participação estudantil está em transformar manifestações e sugestões em processos organizados de acompanhamento.

Quando uma instituição solicita a opinião dos alunos, é importante estabelecer quais assuntos serão discutidos, como as contribuições serão registradas e quais encaminhamentos poderão ser realizados.

Questionários, assembleias de turma, reuniões com representantes estudantis e espaços de avaliação de projetos são possibilidades que podem contribuir para esse processo.

Entretanto, considero que a escolha dos instrumentos precisa respeitar as características de cada escola. Uma estratégia adequada para estudantes do ensino médio pode precisar de adaptações quando utilizada com crianças dos anos iniciais.

Ouvir, analisar e devolver uma resposta

Na minha avaliação, a participação perde parte de seu significado quando os estudantes apresentam sugestões e não recebem informações sobre o que aconteceu posteriormente.

Por isso, considero importante que as escolas estabeleçam mecanismos de devolutiva. Mesmo quando determinada proposta não puder ser implementada, explicar os motivos representa uma oportunidade de aprendizagem sobre planejamento, recursos disponíveis e responsabilidades institucionais.

Também acredito que as redes de ensino podem incentivar a participação estudantil por meio de orientações às escolas, formação de profissionais e fortalecimento dos espaços de representação.

O acompanhamento dessas iniciativas pode considerar a diversidade dos participantes, a regularidade dos encontros e a existência de encaminhamentos concretos.

Uma escola participativa não precisa atender a todas as solicitações apresentadas, mas deve construir condições para que as manifestações dos estudantes sejam recebidas com respeito e analisadas de maneira responsável.

Uma escola que ensina a participar também prepara para a vida em sociedade

Acredito que a escola pública possui uma responsabilidade importante na formação de pessoas capazes de compreender direitos, reconhecer deveres e participar de maneira responsável da sociedade.

Essas aprendizagens não acontecem exclusivamente por meio de conteúdos teóricos. Também são desenvolvidas quando os estudantes possuem oportunidades de dialogar, apresentar argumentos, construir propostas e acompanhar decisões coletivas.

Por isso, considero que a participação estudantil precisa ser reconhecida como parte da formação humana, respeitando as responsabilidades dos professores, gestores e demais profissionais.

Ouvir os alunos não significa abandonar o planejamento educacional ou transformar a escola em um espaço no qual todas as decisões sejam tomadas por votação.

Significa compreender que crianças e adolescentes possuem percepções relevantes sobre suas experiências e podem contribuir para melhorar o ambiente em que aprendem.

Também considero fundamental reconhecer que a participação precisa ser inclusiva. Os espaços de diálogo não podem ficar restritos aos estudantes que possuem maior facilidade para falar em público ou que já participam de atividades de representação.

É necessário oferecer oportunidades para que diferentes opiniões sejam consideradas, respeitando as características e necessidades de cada estudante.

Como professor de Educação Física, compreendo que as experiências coletivas podem ensinar muito sobre convivência, cooperação e responsabilidade. Entretanto, esses conhecimentos precisam ser acompanhados de orientação, reflexão e oportunidades reais de participação.

Uma escola verdadeiramente participativa não é aquela que simplesmente permite que os estudantes falem, mas aquela que desenvolve mecanismos para escutá-los, considerar suas contribuições e explicar as decisões tomadas.

Na minha visão, esse compromisso fortalece a relação entre estudantes e instituições de ensino, contribuindo para uma formação que ultrapassa os resultados das avaliações e os conteúdos curriculares.

A educação pública precisa oferecer conhecimentos, mas também oportunidades para que crianças e adolescentes desenvolvam autonomia, pensamento crítico e responsabilidade social.

É nesse equilíbrio entre aprendizagem, orientação pedagógica e participação que vejo uma possibilidade importante de construir escolas mais democráticas, acolhedoras e comprometidas com o desenvolvimento das novas gerações.

Artigo de opinião — Douglas Silvano — CREF nº 040024-G/SC

Douglas Silvano é professor de Educação Física em Sombrio, Santa Catarina, e atua em iniciativas relacionadas a políticas públicas, à educação e ao desenvolvimento do esporte.

Créditos da imagem: https://www.pexels.com/pt-br/foto/mesa-balcao-menina-garota-8465500/

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